terça-feira, 19 de maio de 2015

Dos riscos que se assumem




De todas as coisas que eu quis nessa vida a que eu quis com maior intensidade foi, sem dúvida nenhuma, a sua companhia. De verdade, não preciso de promessas, de compromissos, de responsabilidade ou de futuro dividido. A única coisa que meu desejo pede é você aqui do meu lado, me fazendo rir por todas as besteiras que você diz, me fazendo bater cabeça com as nossas discussões e ideias meio malucas.
Eu não pedi para gostar de gente diferente. Se eu pudesse gostava de gente normalzinha, comum e sem sal. Mas essa sua falta de juízo e nexo me prendem de uma forma que eu não tenho ideia de como e, muito menos, sei se tenho vontade de me libertar.
Depois de passar minut
os ao seu lado e ter ver indo embora, tenho vontade de lhe pedir para dar meia volta e sentar outra vez na minha frente arrancando tudo de bom que tenho dentro de mim. Lógico que não exigiria que abrisse mão dos seus planos e da sua estrada bem encaminhada. Só ia te pedir para conversar mais um pouco comigo, me fazendo pensar que talvez exista algum sentido nisso tudo que a gente chama de vida. 
Sei lá, você me faz querer mudar de ideia e, talvez até ter vontade de seguir em frente. Porque por você vale a pena interromper a leitura do livro mais interessante do mundo, vale a pena sair de casa em um dia frio, vale a pena mudar meu mundo de lugar e passar o resto do dia pensando em como te prender a atenção.
Mas, ao mesmo tempo, eu sei, entendo que você não pode ficar. Afinal de contas, daqui a meia hora você vai ter que sair outra vez da minha vida. E te olhando assim, tão lindo, tão do meu jeito eu lembro que tenho consciência de temporalidade e você já faz parte do meu passado. Você pode até não perceber, mas esse meu olhar – que mais foge, do que se prende ao seu – pede para o seu coração ignorar essa noção e fazer parte pelo menos do meu presente. Queria eu que do futuro. 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Não sei lidar




Simplesmente, não sei lidar. Eu não sei lidar com gente intolerante, não sei lidar com quem não aceita opinião divergente da sua. Não  sei lidar com gente fria (e nem com o frio também). Não sei lidar com coisa ou momento sem paixão.  Da mesma forma com outro alguém: não sei lidar com quem não é apaixonado - por um ideal, pela outro ou pela vida. 
Não sei lidar com quem só sabe olhar pro próprio umbigo e acha que o mundo gira ao seu redor.  Não sei lidar com gente que não gosta de chocolate. Não sei lidar com muito sal, a não ser que ele esteja concentrado no mar. Não sei lidar com quem não cede a cadeira no ônibus às prioridades. Nem com quem fura fila, com quem faz fila dupla ou nunca para na faixa de pedestre. Não sei lidar com omissão. 
Não sei lidar com falsidade, nem com meio-termos. Não sei lidar com quem não gosta de ler. Não sei lidar com quem não vê graça em Friends. Não sei lidar com gente normal. Não sei lidar com falta de bom humor (mas jamais o confunda com meio para ofender). Não sei lidar com machismo. Não sei lidar com racismo, nem com lgbtfobia. Não sei lidar com opressões. Não sei lidar com ausência da alteridade e nem da sororidade (mesmo quando ela parte de mim). Não sei lidar com gente que odeia Chico Buarque. Na verdade, não sei lidar com quem não gosta de MPB. Não sei lidar com quem odeia tudo, muito menos com aqueles outros que amam tudo. 
Não sei lidar com quem acha que o Brasil está a um passo de ser Cuba, nem com quem pede a volta da ditadura. Não sei lidar com jenipapo. Nem com sentimentos, nem com demonstrações públicas dele. Não sei lidar com elogios. Não sei lidar com falta de tesão. Não sei lidar com a espera. Não sei lidar com quem vê a redução da maioridade penal como solução,  nem com quem diz que "bandido bom é bandido morto". Não sei lidar com a pressão,  nem com a falta de compromisso. Não sei lidar com gente que é feliz 24 horas, 365 dias. Não sei lidar com trovões. Não sei lidar com meus medos. E nem comigo mesma.
Sinto muito, mas eu não consigo lidar.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Sobre uma menina boba e a felicidade



Tá certo.  Tudo bem, é hora de eu ser justa com você.  Então, vou começar por parar de te deixar sem algumas respostperguntas feitas com o olhar. Vamos lá. 
Não  é por nada que eu fico aqui mexendo por segundos que mais parecem horas nesse café doce demais. Nem são só pensamentos aleatórios quando meu olhar se prende ao nada e o riso me foge. Tem mais, rapaz. Muito mais aí por trás.
Que pareça só vontade de chamar atenção, melhor para o muro que protege tudo aquilo que me toma verdadeiramente. E quer saber? Antes fosse. Só que tem mais, pequeno, muito mais.
Por trás de tudo isso, tem a insegurança, que sei que você já detectou e que parece não se importar. Mas é que ela se desdobra em um outro tanto de coisas, em algo que talvez nem seja muito maior, mas que me chega aos olhos e ao coração como um gigante bicho papão.  E me deixa assim, amoada e mais chata que o normal.
É que essa insegurança,  meu rapaz, ela é mãe de um dos piores defeitos que trago comigo: o medo de ser feliz. Eu não sei me permitir, é isso. Eu tenho medo, pavor - pra falar a verdade - de sentir o que essa tal de vida pode me oferecer de bom. Aquela prática de "ter o pezinho no chão" sempre me pareceu mais fácil.  Mas não é não...
Não é porque ela me fecha pra mundo, porque ela me afasta daquilo que eu podia ter de bonito, inclusive de você.
A verdade, é que nem sou aquela cilada toda que ameacei que seria.  Me visto de confusão,  mas me faço toda solidão.  Eu não causo ameaça nenhuma, não represento perigo, pode ficar tranquilo.  É que talvez eu ainda seja uma menina. Muito boba, por sinal.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Fica


Entre lágrimas sem sentido eu te mandei embora. Pedi chorosamente que você desse meia volta e se retirasse da minha vida. Te alertei sobre a confusão em que você estava se metendo, só que você não me deu bola. Teimoso e cabeça dura - como se entitula e gosta de provar que é - ficou. Ficou ali, enxugando meu pranto e me balançando como quem nina um bebê.
Te pedi outros milhões de vezes que me deixasse,  te provei que eu não valho a pena e que estacionar seu coração bem ali mesmo, na minha vaga, gera multa altíssima e um coração partido em milhões de pedacinhos.   No entanto, você só sabe ser amor.
Mas sabe, passando todo esse alvoroço que não sei bem explicar e vivendo um raro lapso de calmaria, eu te peço: vai não.
Não nego, sou de fato uma roubada das grandes, mas esquece o que eu disse. Sei que isso - como a maioria dos meus atos- deve te deixar confuso,   é só que sempre me pareceu impossível alguém gostar de mim com toda essa mescla de desastre e confusão que me faço.
Estranha não,  é  que ninguém nunca ousou avançar o sinal depois do meu aviso de "Pare.  Eu sou uma cilada"; ninguém nunca foi capaz de suportar meus dramas e colocá-los tão ajustadinhos e aconchegados nas suas preocupações e zelo. Na verdade, sempre fui acostumada a cuidar, ser cuidada me assusta um pouco.
E então?  Ainda dá para ignorar toda aquela besteria que eu falei? Tá, com exceção da parte em que eu confessei gostar de ti, pode apagar tudo. De verdade, diz que sim e senta aqui do meu lado, prometo que vou tentar me comportar.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Ao meu pequeno



Ei, pequeno . Senta aqui. Não me engula com esses olhos. Tenha calma e veste paciência que eu tenho muito que prosear.
Você faz uma ideia errada de mim, me toma como mulher forte e decidida. Mas sou não, pequeno.
Começo me desfazendo do mulher, sou menina. Menina frágil não, mas muito indecisa.
Por que eu finjo assim?
Ah pequeno, é que uma moça chamada vida me mostrou mentiras por verdades. Me ensinou - sem saber-, diga-se de passagem, que sentir não se demonstra, se esconde e se guarda só pra gente.
Sabe, eu até fui metida a rebelde um tempo desse. Contrariei o que essa moça me jogava na cara e me permiti sentir. Eu amei, pequeno. Eu gritei a todo o mundo que o amor era meu. Mas era não...
Era algo transvestido que parecia tanto com sentimento que me levou cair em um abismo quase sem fim. Mas eu me enganei, pequeno. Certa, então, pareceu-me a tal de vida.
Segui os conselhos dela e reprimi, escondi  aquilo que me parecia ser bonito. Eu desaprendi, pequeno. Desaprendi essas coisas do coração. Não sei mais como se faz, pra onde se vai, como se mexe.
E o que você tem com isso? Ah, pequeno, é que eu ando tentando te esconder.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Ainda é você

Porque ainda é você. Ainda é você no meu caminhar sem rumo, no meu olhar perdido e no meu pensar distante. Ainda é você naquela música cantada com todo fervor, no poema recitado cotidianamente feito oração e no meu livro favorito. Ainda é você na cerveja gelada, nas cartas de baralho mal distribuídas e nos bilhetes ligeiramente rabiscados. Ainda é você nas conversas jogadas fora e nas reflexões que me tomam quase todo o tempo. Ainda é você na calmaria do meu quarto escuro e na solidão da noite. Ainda é você quando dou o meu melhor e o meu pior também. Ainda é você quando reconheço meus defeitos e quando me esforço para melhorá-los. Ainda é você quando me sinto extremamente feliz e totalmente destruída. Ainda é você quando vivo a vida intensamente e quando resolvo me entregar às surpresas do destino.
Porque mesmo com a imensa distância que nos separa, ainda é você em cada gesto meu, em cada olhar direcionado a um qualquer e em cada pedaço de mim.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Sobressair


Sabe, eu ainda escrevo e leio textos de amor, mas não tento mais vivê-los. Ainda assisto algumas comédias românticas e até choro com muitas, só não quero mais que sejam o roteiro da minha vida, entendi o quão amargo e maravilhoso é o sabor da realidade. Sim, sim. Eu ainda escuto os mesmos sambas que falam de paixão, mas não danço mais no ritmo deles; agora eu danço ao som do que tocar. Aham, eu ainda choro muitas noites com a cara enfiada no travesseiro, sozinha no escuro, com aquele efeito dramático; mas venho aprendendo a conversar mais, a desmistificar meus monstros mais profundos. Não nego, todos os dias ainda relembro o passado, meio que como uma forma de aprendizado, para não esquecer do que doeu e como eu cheguei naquele estágio patético em que eu me encontrava meses atrás. No entanto, não vivo mais fazendo do meu cotidiano um reviver do que passou, venho injetando presente na veia e estando sempre em um maravilhoso estado de êxtase. Claro, eu ainda gosto do calor - é que ele combina com meu estado de espírito e me amedronta menos - entretanto, já suporto o frio corriqueiro sem a sua presença. O sabor do sorvete permanece o mesmo, ainda não consigo andar calçada, nem tomar o café amargo que acho bonito; nunca me acostumei com o cheiro do cigarro, continuo a ficar bêbada com a mesma facilidade de sempre e meu sono permanece pesado. E falando sobre as coisas das quais nunca fui capaz de me desapegar, chegando mais precisamente até você, não preciso de rodeios. Ainda gosto, quase amo; ainda desejo, penso. E quando penso vez por outra ainda solto um riso torto só de lembrar. Mas não quero mais. Não para mim. Você, quer dizer, nós, viramos aquela lembrança bonita, mas distante demais para alimentar estímulos vitais. Serve só para lembrar mesmo. É, meu rapaz, e eu que não acreditava quando diziam que a gente aprende.