segunda-feira, 13 de junho de 2016

Maria vai com as outras



Não sou Maria
Mas vou com as outras.
Dou a mão e sigo em frente,
Levada por elas.

Sem medo de me perder de mim mesma,
Sei que nelas
Me encontro,
Elas são o que eu sou!

Não sou Maria,
Mas vou e estou com todas as outras.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Saudade


Segundo o dicionário saudade é recordação nostálgica. Mas eu que nunca fui afeita a definições denotativas e fechadas penso que saudade é muito mais.
Saudade é quando o aperreio da vida anda grande e por isso o encontro demora alguns dias a mais. Saudade é, depois que você vai embora, encostar a cabeça no travesseiro e sentir o teu cheiro ainda fresco. Saudade é ler um poema e marcar o livro, pra um dia te mandar a próprio punho. Saudade é lembrar dos teus olhos pequenos que riem pra mim e achar graça sozinha. Saudade é quando o beijo tá acabando. É quando o domingo vai chegado ao fim. Saudade é 2 minutos antes do tchau.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Resistência tagarelada



Parece loucura, 
Para alguns
Piada.
Mas sou mesmo assim:
Jogada.

Tagarelo o tempo todo, 
Faço da voz minha arma
Ou pelo menos tento.

Incomodar 
Já me incomodou muito.
Hoje sei,
Não nasci para calar.
Pode preparar a cara feia 
Porque eu vou continuar!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Conselhos para Ana: sobre amor



Vê só, como irmã mais velha que viveu um tiquinho a mais, preciso te dar uns conselhos chatos e cheios de si, de quem se acha dona da razão. Como quem já muito apanhou, sinto que preciso te falar de amor.
Atenta bem, vão te fazer acreditar que amor é uma coisa arrebatadora, que coloca em ruína todas as estruturas, que destrói tudo que demorou para se fazer. Mas é mentira. Amor não é isso não. Amor constrói, amor se constrói. Além disso, vão tentar te persuadir a crer que para viver esse sentimento louco do qual muito se fala e pouco se vive, você precisa mudar completamente alguém, que é necessário fazer com que a outra pessoa abandone totalmente aquilo que sempre foi para se transformar no seu projeto de pessoa perfeita. Menina, é outra farsa. Comecemos pelo fato contraditório de que as pessoas mudam quando sinceramente querem, mesmo que tal transformação seja motivada pelo que se passa de mãos dadas ou desatadas de outrem. A gente transmuta naturalmente quando convive. Mas nunca se despe totalmente da indumentária que vai se construindo: a gente sempre tem um bocado de passado e outro tanto de futuro. Aprende logo o que me disse uma boa amiga tempo desses: amar é poder e conseguir ser, sem dor, quem se é em companhia de alguém.
Se livra também desse conceito hollywoodiano que tentam nos impor desde os contos de fadas: amor não é perfeito. Amor é bonito porque é cheio de imperfeições. Tem até uma coisa que você sabe bem mais que eu sobre esse sentimento todo que move a gente: amar é perdoar.  A gente quando ama, mesmo que demore, consegue deixar o orgulho de lado e “fazer coisas” para não perder quem a gente quer bem. No entanto, não se engane com essa história boba de amor inerte, que tudo aceita e nada questiona: amor também é diálogo. E quando se dialoga, a gente se a opõe um monte de coisa, a gente contrapõe a opinião do outro, até porque como acabamos de falar, amar mesmo é não deixar de ser quem realmente se é. Amar, meu bem, é aprender não só a lidar com conflitos, mas é também conflitar, se necessário.
Outra maldade danada da qual nos convencem é a de que amor que é amor dói. Lorota de novo. Dói coisa nenhuma. Amor traz leveza, vez por outra frio na barriga, mas ao mesmo tempo, deixa o coração todo em paz. Faz rir sem motivo mesmo, deixa a gente achando de manhãzinha cedo bem bonito só por conta de um sorriso. Pode acontecer dele se tornar unilateral e fazer a gente chorar, mas não esquece nunca: amor não oprime. Essa coisa de tortura é um meio que se encontrou para justificar um bocado de coisa feia, mas isso a gente conversa melhor depois.
Sobre tudo isso tem coisa para falar que não se acaba. Mas para eu te deixar refletir sobre esses conselhos de irmã super-protetora, preciso só te dizer mais uma coisa: amor não tem fórmula. Nada do que te derem de pronto como solução funciona. Não existe isso de passo a passo. Quer um conselho realmente digno de ser seguido: deixa que teu coração guie teus passos.



domingo, 13 de dezembro de 2015

Cheganças



Sempre me fiz tempestade,
Furacão.
Meios termos nunca me encantaram.
Fazia do extremo meu lema,
Canção.

Mas aí chegou você!

De um jeito manso
Sendo sopro de leveza
Me acalmando o coração.

Me olhou de um jeito bonito
Estendeu a mão
Como quem tira para dançar
E, aos pouquinhos,
Fez do meu olhar
Tresloucado de paixão.

Me ensinou que o "para sempre"
É composto de"agoras"
E assim,
Bem de mansinho
Me fez querer ficar
Fazer do teu peito,
Meu ninho.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Conselhos a um menino fujão


            
Ei menino, senta aqui. Mesmo com a aparente distância entre nossos mundos, abre bem os ouvidos, me presenteia com esse olhar terno e escuta bem meus conselhos de mulher que parece ter conhecido cada detalhe do universo.
Quero que você saiba que mesmo muito diferentes, somos um tantinho igual - eu tenho um pouco dessa tua meninice: ainda me falta um bocado para crescer. Também preciso te contar que já percorri algumas estradas a mais que você e que elas não são tão doces quanto a nossa sintonia, mas que a gente vai colocando poesia nelas: independente do que te disser o resto do planeta, não esquece - quem dá o tom suave da vida é a gente.
Por vezes você vai tentar fugir dos problemas, assim como foge de mim e das minhas impossibilidades. Mas olha, por mais que seja difícil encarar, as coisas não são assim. É necessário enfrentar cada monstro que aparece no nosso meio, principalmente aqueles que tentam fazer latifúndio do nosso coração. Eu sei, eu sei. Dói. Parece que destrói cada pedacinho que nos compõe. Mas te garanto, se a gente ignora totalmente, menino, se a gente finge que não vê de jeito nenhum, tudo isso domina a gente de uma forma bem pior.
Também não deixa faltar poesia na tua vida. Você pode até achar isso bem estranho, coisa de gente grande eu falar tanto assim nela. Mas é não. Isso, menino, é pouco do que ainda resta de bonito da minha pequenez. Além do que, é essencial. Tudo já é tão feio. Se a gente não rima esses versos desengonçados que vai arrumando por aí, sei nem como se leva pra frente.
E por fim, menino, não se desapega do amor. Não deixa ninguém te dizer que ele é coisa besta, que a gente passa melhor sem ele. Nem que esse alguém seja eu. Sem sentir a gente nem existe. Não perde essa tua capacidade de transmitir paixão. Você nem sabe, mas todo esse amor que você exala, já me sustentou diversas vezes.
E para acabar mesmo, sem mais delongas e conversa furada, quero te pedir para não sumir tanto assim. Ok, ok. Posso te assustar e deixar pensando que é melhor não me olhar nunca mais. Só que o que existe entre a gente é maior que isso, pelo menos vez por outra, volta aqui. É que a serenidade da nossa tempestade me deixa tão feliz.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Dos tropeços que remedam



De tão desastrada que sou, topei em um amor bem pequenininho e quebrei metade de mim. 
Tentando desviar para não levar outro tombo em uma baita ilusão que me aparecia à frente, escorreguei e quebrei a outra metade que me restava.
Quebrando-me, então, em metades e várias migalinhas fiquei inteira!

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Para um moço de poucas palavras



É moço, logo eu que sempre fui dada à palavras, que sempre gostei de prosear. Logo eu que falo tanto, fico muda assim, só de te olhar. 
Quando me boto na tua frente, sei o que dizer não. Só sei olhar para o pretume dos teus olhos e me embriagar com esse cheiro de amor novo que exala quando a gente se abraça.
Fico querendo procurar palavras certas e bonitas, mas de bonito só tem o que tá nascendo bem de mansinho. 
E nem me pergunte nesse teu silêncio cheio de mistério o que é que tá brotando aqui dentro. Nessa minha ignorância de quem parece amar pela primeira vez - mesmo já tendo o coração remendado por demais - também não sei do que se trata. 
Mas tô preocupada também não. A tal da pressa em descobrir exatamente o que é finalmente me deixou em paz. 
Não se avexe não, seu moço. Vamos deixar essas palavras desarrumadas para lá, prefiro só sentir. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Adeus, pequeno



Vem, pequeno. Não se acanhe, pode entrar, você já é de casa. É, eu sei, deve tá tudo estranho para você. Para mim também tá. Sei que essa organização aqui dentro deve aparentar uma bagunça enorme e bizarra, acredite - eu também não tô conseguindo encontrar nada por aqui. Sei, não dá para entender essa falta de intensidade, né? É incompreensível toda essa calmaria e inadmissível tamanha serenidade. Antes de você ir eu era só exagero e agora o meio termo se familiarizou e fez morada por aqui.
Mas é que quando você decidiu que era de hora de partir você levou muito de mim. Deixou só aqui um ser que não sabia lidar com todo aquele sentimento, que não conseguia engolir tamanha solidão e que não tinha ideia do que fazer com tantas lembranças e com o vazio enorme que você provocou.
Não foi fácil, pequeno. Nenhum pouco, para ser sincera. É que quando você chegou eu acreditei muito em você, em nós e nesse tal de amor. Mas não foi dessa vez, não para mim. Eu entendo, pequeno. Entendo que não foi de propósito. Tenho certeza de que você não me despedaçou por querer e que seu silêncio me pede desculpas vazias de remorso. E sem querer também você levou muito do que eu tinha de melhor e abandonou por aí, em uma esquina qualquer.
Quando você resolveu seguir seu rumo, junto contigo foi toda aquela minha esperança, aquela capacidade que eu tinha de sonhar. Você fez o desfavor de me apresentar uma tal de realidade e de me roubar o resto da ilusão que tinha no pote escondido no fundo armário. Também foi dentro da tua mala seca aquela minha intensidade ansiosa, as borboletas que meu estômago aprisionava se soltaram e agora só me acompanha um enjoo amargo de tranquilidade.
Você me levou isso e muito mais. Levou embora de mim aquilo que eu era e me obrigou a remexer tudo que tinha aqui por dentro. Sua partida me forçou a mudar de lugar a organização dos meus sentimentos. Fiquei um pouco dura, sabe. Tive que engolir junto com a saudade o fel da vida real. Eu desaprendi a me jogar, pequeno. A indiferença veio ser companheira minha, sem me deixar reconhecer quem sou. Tive que me refazer e acabei deixando tudo arrumado demais.

domingo, 11 de outubro de 2015

Reencontros



Por culpa dos encontros da vida - que muitas vezes resultam em desencontros - a gente vai se esbarrar. Talvez você esteja com uma menina de riso mais branco e fácil que o meu ou talvez eu realmente te encontre por aí de mãos dadas com a solidão. A gente vai rir um para o outro, mas não vamos nos encarar. Nossos olhares falam demais e podem, quem sabe, exigir os 'porquês' daquele final escandalosamente silencioso. Ou pior ainda, podem cogitar uma volta de, pelo menos, algumas horas.
Vamos cumprir nosso papel de bons amigos. Você vai me perguntar como anda a faculdade e me contar o quanto é difícil encarar a fase final de curso/vida adulta-profissional. Vai fazer piada com sua própria situação e vai me dizer, enterrando os olhos no chão, que quando for a minha vez, eu vou tirar de letra. Meio que se desculpando por ter largado minha mão quando eu mais precisava. Eu vou falar que você logo, logo vai encontrar o sucesso e, em ritmo de brincadeira, ser sincera contigo dizendo que quando ele entrar pela sua porta, você vai se esquecer de mim. Vou te contar dos rebolados que tenho dado para equilibrar o tempo e dar conta do monte de tarefas que tenho. Vou te falar da minha pesquisa e de como ela vai salvar o mundo. 
Os assuntos vão terminar e para não perdermos a postura de pessoas bem resolvidas e desapegadas vamos propor uma cerveja e procurar o bar mais próximo. Ao sentar a mesa meu coração vai batucar e temer ser escutado, ao especular a possibilidade de o seu também balançar só um pouquinho por mim. Vou tremer as pernas para tentar mascarar o som do meu peito e, pela força de um hábito já perdido, você vai colocar a mão no meu joelho para que eu pare, questionando se eu ainda tenho todo aquele problema com ansiedade. 
Eu vou tentar rir, dizendo bem caladinha, como ainda sou a mesma pessoa e o quanto eu sinto falta dos teus cuidados. Vou abrir a boca para te lembrar que nem faz tanto tempo assim, que eu ainda nem consegui colocar aquele livro que você leu para mim no lugar que ele ocupava na estante e que minha vida ainda está cheia de poesia tua.  Mas aí vou lembrar que você vive minutos como eternidades e vou suspirar baixando a cabeça. 
Você vai perguntar se tudo anda bem, se eu me interesso pelos teus conselhos e se você pode me oferecer ajuda. Vou querer correr pro teu colo conhecido e curar nos teus braços as feridas que você me causou. Mas vou só dizer que foi um dia corrido e te contar alguns problemas do trabalho. Você vai me dar conselhos experientes de quem pouco conhece o mundo; eu não vou contra argumentar e vou elogiar teu poder de resolver tudo aquilo que não nos diz respeito. 
Já movidos por algum teor alcoólico vamos relembrar a nossa velha mania de devanear a respeito da vida e teorizar sobre aquilo que só se sente. Lá pelas tantas, em um momento de alto risco, vamos tocar em um passado comum, querendo fingir que não dividimos nada além de mesa de bar. Vamos tocar em coisas que se perderam e ainda se fazem presentes no nosso cotidiano. Vou querer te dizer da falta que você me faz, do quanto me controlo para não te procurar e de como a vida anda feia sem você. Vou ficar imaginando que você também quer me dizer algo do tipo, alimentando uma expectativa que me corrói. Vou querer te chamar para minha casa e de volta pra minha vida.
O silêncio constrangedor de segundos que aparenta te trazer um remorso inexistente vai fazer você olhar para o relógio. Mas antes que você se proponha a partir novamente e que me deixe outra vez na solidão da minha companhia, eu me adianto e digo que já está tarde. Você acena para o garçom, pede a conta e  a saideira do nosso amor. 

sábado, 10 de outubro de 2015

Sobre o amor e uma menina desastrada



Sei que se apercebeu desde cedo que me componho toda de desastre, você até ria e tirava brincadeira com isso. Sempre que eu derrubava qualquer objeto, caía ou conseguia me queimar, você zombava me pendido cuidado. Rogava que eu tivesse mais atenção, que olhasse para os lados, para frente e tentasse não pisar tanto em falso. Pedia para eu não me machucar porque era cuidando de mim que eu cuidava de você.
Mas além de desastrada eu sou boba. Mesmo transparecendo maturidade e experiência, sou só uma menina medrosa, já te disse. Uma menina medrosa muito fácil de ser enganada, em especial se for por mim mesma.
E mesmo diante de tantos pedidos, de tantas alertas eu não soube me cuidar. Não soube nos cuidar. E além de ralar os joelhos e arrancar tampos dos dedos em topadas que a vida nos apresenta, eu ensanguentei esse amor. Meu desastre que quebra tudo aquilo que se põe ao meu alcance foi maior que teus apelos de calma e atenção, eu consegui estragar tudo, pequeno. Com a minha pressa desastrosa eu derrubei esse amor, pisando em cima dele sem perceber e deixando-o em migalhinhas. Não tinha outra saída, eu sei. Frente a tanto desastre não tinha como ficar perto: ou você se afastava ou eu ia acabar te quebrando também.
Agora, fico só te olhando de longe. Fico só a te observar ser vitoriosamente e lindamente inteiro. Doida de vontade de te pedir ajuda para colar tudo aquilo que eu despedacei. Mas eu tenho que crescer, tenho que aprender a concertar aquilo que eu teimo destruir. Sendo assim, tenho de aceitar: esse amor não se cola mais.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Sobre dar certo



Quando pressenti o fim se colocar entre a gente, se abriu um buraco no meu peito e eu deixei que escorresse um choro manso e doído, agarrada ao travesseiro que tinha teu cheiro. Chorava e repetia para o meu coração já quase vazio o quanto eu queria que desse certo com você.
Sofri durante dias, amaldiçoando a vida por ter tirado essa possibilidade de mim. Mas tem uma hora que a gente enfrenta a realidade. E quando bati de frente com ela, me surpreendi: vi que a gente tinha dado certo. A verdade, meu rapaz, é que logo eu - que tanto me questiono buscando respostas - nunca tinha pensado sobre o que é dar certo. 
Como de costume, cheguei a minha resposta pela negativa daquilo que procuro. E dar certo, menino, não é status no facebook, nem datas escolhias e, muito menos, o tal do "para sempre". Dar certo é muito mais que isso. É conseguir fazer sorrir no meio de uma quinta-feira problemática, é ser testemunha de choros escandalosos guardados para a madrugada. É sentir compreensão em uma troca de olhar, é ser companhia mesmo quando distante. Dar certo é poder confiar, é não sentir vergonha, é poder contar, é rir da piada sem graça, é dividir as dores do que passou e o medo do que vem. Dar certo é se querer bem, é torcer pelo bem do outro. Não se liga a temporalidade, mas muito a intensidade. 
E essas coisas todas a gente teve de sobra. É, a gente deu tão certo. 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Porque eu sou feminista

Dia desses me fizeram uma pergunta aparentemente fácil de se responder: "por que você é feminista?" . Confesso - pensei por muito tempo até chegar a conclusão do porque ter o feminismo como guia da minha vida. E conclui que sou feminista porque quando eu nasci disseram que a minha cor era róseo, mesmo que eu sempre tenha gostado bem mais de verde. Porque quando eu era criança diziam que eu tinha que brincar de boneca e fingir cuidar de casa, por mais que adorasse jogar bola. Porque quando me deparei com a primeira menstruação, tentaram me ensinar a ser mocinha e me contaram que eu deveria aprender a sentar de pernas fechadas, a me preservar mais e a me portar como moça de família.
Eu sou feminista porque me disseram que as tarefas domésticas eram inteiramente de minha responsabilidade, mesmo que vários homens morassem na mesma casa que eu. Eu sou feminista porque separaram mulheres em "para casar" e "para comer", e eu jamais iria querer ser mulher de uma noite só, tinha de aprender a ser "mulher para casar".
Eu sou feminista porque me fizeram acreditar que era feio mulher xingar, beber,  ficar com vários em uma noite ou ter comportamentos estritamente masculinos. Porque desde a adolescência me disseram que eu tinha que me dar o respeito e me negaram o que era meu por direito.
Eu sou feminista porque o sucesso profissional que eu tenho ou venha a ter é muitas vezes atribuído a "favores" sexuais prestados aos meus superiores, a roupa que usei na entrevista, mas nunca ao meu intelecto. Eu sou feminista porque minha avó ganhou menos que seus colegas de trabalho, minha mãe ganha menos que seus colegas de trabalho e eu ganho menos que os meus. Porque na sala de aula, em espaços políticos e em casa os homens da minha vida sempre me cortaram a fala. Porque eles sempre traduzem o que eu digo e sempre sabem qual a melhor hora para que eu fale.
Eu sou feminista porque quando estou em uma festa sempre tem um cara que só me respeita se eu estiver acompanhada e que sempre vai se desculpar pela insistência inoportuna com meu companheiro e não comigo. Porque não posso sair com a roupa que eu desejo sem ser julgada por isso. Porque o meu decote e o comprimento dos meus shorts legitimam as agressões verbais, físicas e psicológicas que eu sofro. Eu sou feminista porque não posso sair sozinha a noite, já que para mim o mundo é perigoso. Porque se eu for estuprada e se eu apanhar, foi tudo porque eu dei motivo, porque eu mereci.
Entenda, eu não queria ser feminista. Não mesmo. Mas eu precisei. Eu PRECISEI porque todos os dias minhas irmãs são violentadas, agredidas e mortas. E junto com elas eu morro um pouquinho, todos os dias.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Não sei



Se sei quem sou?
Sabe lá!
Quem define e traduz um punhado de incertezas?

Se me encho de "não sei's" não é a toa
Realmente não sei se conheço aquilo que desejo

Não sei se quero
Se arrisco
Ou se espero

Não sei se aposto
Se jogo
Ou se volto

Não sei se falo
Me faço
Ou me calo

Sei menos ainda
Se aqui pra você tem espaço!

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

As vantagens de ser invisível: uma resenha ou meu último aprendizado


Querido Charlie,

Queria começar dizendo que muitas vezes eu também sou invisível. E que talvez todas as pessoas boas, de alguma forma, o sejam. Isso não significa, no entanto, que  eu me ache uma pessoa tão boa assim. Muito pelo contrário. Mas eu tenho esperança. Tenho esperança de um dia ser como você.
Olha, eu também tenho as minhas feridas, que parecem nunca cicatrizar. Também escondo coisas irreveláveis (que um dia vão ser descobertas). Também não gosto das belezas convencionais. Na verdade, de nada que se enquadra nos padrões. 
Mas principalmente, Charlie, eu também penso muito, e-x-a-g-e-r-a-d-a-m-e-n-t-e. E sinto tantas coisas, de forma tão intensa; e nunca falo sobre elas. Eu também amo demais e tenho a mesma ilusão de que esse amor pode justificar tudo, sendo suficiente para qualquer coisa. Mas não é. E aí cometo o mesmo erro: acabo esquecendo de "fazer coisas". E a Sam tem toda a razão: a gente não pode se limitar a ficar sentado, sentir e pensar - "fazer coisas" importa muito.
E é por isso, é por você, Charlie; na verdade, foi com você que decidi parar de "não fazer coisas" e de tentar não ter tanto medo assim. 
Preciso também dizer que pela primeira vez eu não corri para última página logo nos primeiros capítulos de um livro. Pela primeira vez, eu não me deixei tomar pela ansiedade e pelo pavor do que estar por vir. E quer saber? Não vou mais querer ler o próximo capítulo da vida também. Deixa acontecer.
Com você e sua páginas eu tive muitas lições. E pode ter certeza de que, daqui por diante, vou estar sempre "fazendo coisas", amando e passando por túneis - deixando o vento bater no rosto.
Obrigada, Charlie. Aprendi a viver um pouco mais com você.


Com amor, 
Gabi.


OBS: ao terminar a leitura de "As vantagens de ser invisível" de Stephen Chbosky, tentei fazer uma resenha. Mas tudo o que saiu foi uma carta cheia de emoção para um dos personagens mais lindos que já (re)conheci. E a frase da foto 'somos infinitos' é uma das constatações mais loucas e profundas que Charlie fez. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Aquilo que não se publica em jornais



Hoje me deu uma vontade tremenda de te encontrar. E nem era para dizer que ando sentindo uma saudade desgraçada e que ainda penso muito em ti. Eu só queria te olhar nos olhos e contar que eu venho conseguindo estudar mais, que larguei o emprego que tanto odiava e que ando com planos de morar só. Acho que você também gostaria de saber que fiz aquela bateria de exames que eu tanto prometia, que voltei a comer salada e me matriculei na academia.
Também queria te contar que eu vou fazer aquela viagem que me prometia desde o ano passado e que terminei todos aqueles livros que você me recomendou. Acho que você até ficaria orgulhoso se eu contasse que a minha vida anda tão calma e que a última confusão em que me meti foi você.
Mas também ando muito curiosa. Queria saber como foi aquele show que você tanto esperou e o que achou daquele livro que te emprestei e você nem chegou a me devolver. Falta você me contar como foi seu médico e se você marcou a terapia. Também quero notícias de a quantas anda aquele seu projeto e como foi aquela sua prova difícil. 
Além disso, muito me interessa saber se você finalmente conseguiu arrumar a bagunça que tomava conta da sua vida e se agora tem um espacinho aí para mim. Eu preciso descobrir se teu coração anda em paz e se ainda bate alguma coisinha por mim.
Mas eu não sei. Nem de você, nem da sua vida, nem mesmo o que fazer de  mim. Porque, sabe, por mais que eu tenha encaminhado minhas estradas e mantido as aparências ainda tem um vazio aqui dentro. Falta alguma coisa, rapaz. Falta você em tudo. Falta nós. 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Sobre partidas (in)esperadas



Em um daqueles momentos em que você se aninhava em meus braços e que as palavras me fugiam mais fácil pela embriaguez da nossa química, eu te menti que eu não sentia medo. Que eu e a expectativa andávamos sempre muito distantes e que, por tanto, eu estava preparada para qualquer fim repentino. Tudo mentira. Você, deixando-se convencer pela minha ascendência geminiana ou fingindo por comodidade crer em todas aquelas bobagens que eu falava, me afirmou com certo ar de dor que só tinha um medo: que eu gostasse muito de você.
Confesso, nessa hora senti um calafrio e quis jogar limpo contigo, quis te pedir perdão pelo desapego dissimulado e te frustrar dizendo que já era tarde. Que já gostava de você. Muito. Que eu estava arriscando tudo: minha falsa estabilidade emocional, meus pensamentos e, em especial, meu coração. E que por isso eu sentia um medo desesperador. Quis ser ainda mais injusta contigo e te dizer que aquela sua preocupação era boba, que ela não tinha sentido nenhum porque você não iria me machucar de jeito nenhum.
Machucou. Assim como a intensidade com a qual te dedico meu gostar, você me machucou muito. Me apresentou lugares do meu peito que eu desconhecia e dos quais eu fugia há tempos. Teve toda a paciência em me fazer acreditar nesse troço amargo que as pessoas chamam de amor, colocou band-aid’s e mertiolate nas minhas feridas. E quando elas cicatrizaram você me partiu o coração com a sua partida (in)esperada, me deixando sozinha, sem nem mesmo um único motivo para ter raiva de você.
E agora, meu rapaz? Diz para mim: o que eu faço dessa angústia toda? Como é que é lidar com tudo isso? Porque, olha, não faço a mínima ideia. Você pode fazer o favor de me ensinar? 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Das miopias sentimentais



Você viu minha pose de moça durona e difícil, assim como também viu eu me despir dessa indumentária que não me serve confortavelmente. Viu meu humor ácido de mulher bem resolvida transformar-se em insegurança de menina mimada. Viu minha tranquilidade de falar em público sobre assuntos que saem no jornal, mas também me viu balançar o pé freneticamente antes de dormir e ser tomada por uma crise de ansiedade inexplicável. 
Viu aquela lagrimazinha no canto do olho que rimava com um bico característico do descontentamento se transformar em pranto. Viu o quanto posso ser grosseira se sentir a necessidade de me por na defensiva, mas também me viu sem defesa nenhuma. Viu minha mão estendida pronta a ajudar, mas viu também meu pedido de socorro.
Viu meu riso mais inocente, assim como viu meu lado mais malicioso. Me viu corar de vergonha, do mesmo modo que me viu perdê-la em segundos. Viu meus medos e me viu criar coragem. Viu a personificação da satisfação quando sua mão me acariciava a face, ao mesmo passo que viu a do descontentamento quando você teve de me deixar. 
Viu meus defeitos mais escondidos, a minha entrega dificultosa. Meus sonhos transformados em frases de efeito que não mostrei pra ninguém, além de você. Viu minha regra e minha exceção. Me viu dormir e acordar. Me viu ser menina e mulher. 
Você me viu nua. De roupa e de alma. E depois de tanto ter visto, eu me pergunto: como não conseguiu enxergar o quanto gosto de você?

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Outras tantas letras trancafiadas



Oi, tudo bem?
Sei que tinha aberto uma exceção para minha promessa de não fazer promessas e prometi a mim mesma que nunca mais te mandaria nenhuma mensagem sequer. É que como te contei, cumprir promessas nunca foi meu forte.
Só que não foi à toa não. Estou descumprindo minha jura para comigo mesma porque hoje eu fui ao cinema. Fui assistir aquele filme que eu queria ter assistido contigo e que só pelo trailer sei que você amaria (mas que a covardia me impediu de te convidar). E eu chorei, chorei muito, um choro preso. Impedido de sair dessa vez não pelo orgulho, mas porque eu tinha medo de que se eu chorasse por nós, eu te tiraria de dentro de mim sem conseguir mais por de volta.
Mas voltando para o foco dessa tentativa de diálogo e para o meu objetivo de te fazer entender, vamos ao motivo de eu ter despencando em lágrimas no meio de um cinema lotado. Foi a trilha sonora, pequeno. Foi àquela música do U2 que você me mandou em uma quarta-feira à noite, que me tirou o sentido das coisas, dando uma lógica para aquele sentimento (assim paradoxal mesmo).
Não consegui prestar muita atenção no filme, a música me tomou por completo. Assim como você fez comigo. E eu só consegui continuar a chorar. Só que dessa vez não tinha a tua mão para me acalmar, nem teus olhos mansos a me sussurrar que isso é coisa da vida, que não passa assim depressa, mas que a gente aprende a lidar.
A verdade, pequeno, o real motivo pelo qual eu digito cada letrinha dessa mensagem ridícula é que você ao mesmo tempo em que me roubou a independência, me abriu uma brechinha na janela e mostrou através de um feixezinho que o mundo podia ser um tantinho meu e que não há razão nenhuma para eu não me permitir. Antes de você e desse misto de serenidade e caos que você se faz, eu sabia e queria me virar, rapaz. Só que ultimamente anda tão difícil me cuidar sozinha...
E eu me perco dentro das minhas próprias palavras. Não consigo prosseguir com meu raciocínio, inicialmente tão lógico e perfeito, não só por ser essa a minha especialidade. Mas é que fica meio difícil, quando a organização daquilo que falo disputa lugar com a tua imagem dentro da minha cabeça. Como de feitio meu (e como você já deve estar imaginando e rindo por dentro) eu tenho que dramatizar tudo, então crio uma cena: você com o ar mais lindo do mundo de “não era isso que eu queria para nós”, lendo por cima dos óculos cada letrinha digitada sob um lapso de impulsividade, suspirando e falando no silêncio do teu meditar  que era disso que você tinha medo, de eu gostar demais de você e acabar nesse sentimento unilateral que me toma agora.
E bem aí nesse momento do script, se eu pudesse te tomava nos braços e invertia a posição. Era eu quem ia te consolar e dizer para não se culpar. Assumiria outra vez a posição do meu ascendente, sendo perfeita geminiana, te passando calma e desapego. Lembrando que eu tinha plena consciência do barco em que eu navegava, que eu tinha assumido – desde o primeiro beijo – o risco de ele afundar. Seria a minha vez de te falar, pequeno, que isso é surpresa da vida, que eu ia me refazer e que nós conseguiríamos ser bons amigos.
Três grandes problemas nessa cena final:
a) eu não consigo mentir para você;
b) a alma leonina me faz toda paixão;
c)nós nunca mais seremos somente bons amigos.
Ok, os caracteres da mensagem já estão se encerrando e eu já consigo me recompor. Queria, queria MUITO para falar a verdade, te pedir para repensar e voltar para juntinho de mim. Só que Bono Vox me disse que o amor não é uma coisa fácil e que eu tenho que andar. Para frente.  Mas agora, deixa eu encerrar de verdade, que apagar letra por letra dá um trabalhão.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Das mensagens que nunca enviei

 

Há uns 5 dias atrás eu mantinha o desejo fixo de que você pudesse conhecer uma versão mais tranquila e menos dramática que eu tinha certeza ter me tornado há pouco mais de um mês,  dois quem sabe. 
Eu pensava e me perguntava: se você tivesse conhecido esse outro eu, se eu tivesse sido tão menos dos problemas que eu fui e representei, teria sido diferente?
Eu queria muito acreditar que sim. Mas não teria. Nada ia ter mudado. 
Eu avisei que eu era especialista em afastar pessoas, alertei que eu tinha um dom muito forte em destruir o que eu tinha de bom com elas. Você me disse que não era para eu gostar tanto de você,  que podia ser perigoso. Mas nós dois ignoramos os avisos de quem só queria o bem.  A vida não.  Ela não ignorou, ela foi atenta e certeira. 
Olha, tudo isso não deve fazer o mínimo de sentido. Na verdade, nada que venha da gente tem muito sentindo.  E isso me faz falta. Faz uma falta absurdamente horrorosa porque aprendi que o que dói nessa vida é aquilo que faz sentido.
Hoje me senti tão só no meio de tantas pessoas e só me veio uma pessoa a cabeça,  só você - aos olhos do meu cérebro que não tem nada de racional - parecia capaz de escutar todos os meus medos. E eu tenho tantos...
Mas tudo parece tão distante,  parecemos duas pessoas que conheci há uns anos atrás, tem horas que parece que a gente nem existiu. 
E eu senti um ódio muito grande disso tudo.  Até eu entender de verdade que eu não posso me esquivar dessa coisa toda de sentir,  que eu não controlo, que eu não sou imune. Entendi que por mais expectativas não criadas, promessas não feitas, a gente vai esperar sempre algo do outro alguém. Algo que as vezes é caro demais e que não pode ser exigido. A verdade é que as pessoas vão magoar a gente, mesmo que elas não queiram, menos pior que a gente escolha quem vai deixar essas cicatrizes. 
Eu não "só queria dizer" alguma coisa com isso tudo. Eu queria dizer muito,  queria dizer muito mais do que minhas palavras não relidas são capazes de expressar. E eu entendi também que eu nunca vou conseguir dizer tudo aquilo que preciso.
Agora, só queria poder te ligar, te pedir para vir aqui me dar um abraço, me fazer companhia nessa droga de vida nova que me trouxe tanta coisa boa. Eu tive um lapso do que eu sou de verdade. E sou egoísta o suficiente para querer me sentir compreendida.
Vou sentir vergonha,  vou me arrepender no instante em que eu apertar no botão para enviar e que essas palavras bagunçadas acumularem volume a sua caixa de entrada. Mas alguém me ensinou que o coração tem que ser seguido,  mesmo que o caminho que ele tome naquele segundo destrua a gente.  
Já no fim, como de praxe, não concluo meu raciocínio porque eu me sinto ridícula. E não tem mais você aqui para me dizer que eu não sou. 
E nem vai ter. 
Mas em parte, todo mundo é um pouco, não é?