quarta-feira, 30 de junho de 2010

Despedida de si mesma

Olhou para aquele corpo esticado ali. Estava pálido. Parecia frio, na verdade, aparentava congelado. Algo lhe arrepiava, talvez porque ele ainda trouxesse aquele sorriso meio torto que sempre tinha nos lábios antes vermelhos. O terno preto e aquelas mãos cruzadas não lhe agradava, ela sabia que não era daquela forma que ele queria ser visto pela ultima vez, mas fazer o que se existia a tal da tradição?
Uma lágrima ameaçava cair pelo rosto fino de Clara. As coisas não estavam as claras em sua cabeça; como aquilo pôde acontecer? Tão de repente, e ela ainda tinha tanto a falar-lhe. Criou coragem, chegou perto do defunto. Levantou a mão, passou-a por aquele rosto tão, tão, tão jovem; tão cheio de vida interrompida. Doía-lhe tanto! Ah, Deus, por que tinha de ser logo ele? Deixou sua mão ali, repousando sobre aquela testa que sempre trazia ruga; ah, como ela amava aquelas ruguinhas!
Debruçou-se sobre aquele corpo tão amado; tinha de lhe dar um abraço, um último abraço. Encostou perto do ouvido dele como se realmente pudesse escutar alguma coisa: 'eu te amo; e por favor, não me deixe'. Beijou a face gélida e sentiu o coração congelar. Era tão duro saber que nunca mais poderia ouvir sua voz pela linha telefônica, que nunca mais lhe daria um abraço-correspondido; ah, nunca mais poderia ver aqueles lábios se abrindo faceiramente em um sorriso branco. Senhor, como aguentaria? Como? Como poderia seguir em frente sem ele?
Era hora do adeus final, verdadeiro. O coração apertou. A garganta de repente ficou seca, e o rosto encharcado. Clara sentia o coração pisado, esmagado, mais pior, ele ainda estava ali; antes tivesse sido arrancado. Acompanhou de longe aquele caminho para o cemitério, lá atrás, sozinha. Caminhava devagar, como se seus passos calmos pudessem o trazer de volta.
O caixão foi colocado cuidadosamente naquela cova, sete palmos abaixo do chão, era ali que a menina queria estar. Apanhou uma rosa, rosa-branca, beijo-a carinhosamente, dolorosamente; segurou bem forte até que os espinhos perfurassem sua mão e seu sangue escorresse manchando a brancura. Jogou a flor naquele buraco. Foi junto seu amor, sua vontade de vencer, seus sonhos e ideais. Adeus, rosa; adeus, Clara.
Enxugou o rosto. Deu meia volta. Era hora de seguir, para lugar nenhum e esperar que sua hora finalmente chegasse.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Parceira

Ando de um lado para o outro. Sento; balanço as pernas, quase que como em uma coreografia; mexo sem parar nos cabelos; olho o relógio a todo instante. Como demais ou não trisco em nada; perco o sono e me desespero. Tudo isso por quê?
É que a minha fiel companheira, ansiedade, insiste em não me abandonar um minuto sequer, não importa o lugar e muito menos a situação. Ela me acompanha em todas as minhas provas, meus encontros, no médico, no dentista e até quando não acontece nada ela está ali comigo. ]
E quando tento ignora-la, a dita cuja faz com que minha barriga se encha de borboletas ou então das minhas mãos a nascente de um rio.
Já tentei um bocado de coisa: tirar
os sapatos e colocar os pés no chão; respirar fundo; deixar me dominar pela tal para que ela chegue em seu máximo e logo vá embora; deixar com que ela brigue sozinha e canse de mim. Já descontei no chocolate, no café, nos livros, nos pobres dos meus pés que constantemente se reclamam de não ter mais forças para andar de um lado a outro; já tentei até terapia, mas a danada não vai embora de jeito nenhum!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Alma, alma demais

Quem sabe não devia seguir os conselhos do meu professor de história e parar de lê sobre política e problemas sociais e me deliciar com a leitura de um bom e velho romance, aqueles mesmos de banca de revista, bem piegas. Talvez estes poderiam me ensinar a lidar com o amor, com os sentimentos, e ah, com os ciúmes.
Quem dera encontrar em um livro de receitas como se faz para o possuir na medida certa. Tenho quase certeza de que leva menos tempo no fogo. Mas não adianta, sempre acabo queimando, queimando o pobre do sentimento e torrando a mim mesma.
Acho que é isso, ando deixando tudo passar do ponto, acho que ando colocando calor de mais, que ando me doando mais do que deveria, aquela história de pouco corpo e muita alma.

domingo, 27 de junho de 2010

Anjos e seus feitos demôniacos

Ela se achava tão forte, tão esperta, tão imune a tudo, ao amor. Mas ai um belo dia chegou um anjo que a levou para um passeio; ele a segurou em seus braços e lhe levou ao céu, mostrou-lhe as mais belas paisagens e a fez sentir o maior dos sentimentos; se não me engano, algo que chamam por aí de amor.
A coitadinha pensava estar curada de todos os seus males-de-amor, mas se esqueceu que a vida adora surpreender. E desconhecia que por tras de todo anjo existe um demônio.
Os braços fortes a soltaram e ela caiu por horas do céu das expectativas, chegando ao chão das decepções, quase sem força.
Mas chegaria outro anjo maldito e ela não se deixaria engar. Chegou. Ela se deixou. É, a realidade é dura, meu bem!

sábado, 26 de junho de 2010

Nos reencontros da vida- Parte III

Para não se perder:

(...)Ela perdeu todo o fôlego, ele chegava mais perto. Sussurrou algo em seu ouvido que a fez rir, mas que se esqueceu no mesmo instante. Se aproximou mais, e mais. Os lábios se tocaram e trocaram suas almas através de um longo beijo.
A partir daquele momento, o percurso pareceu querer birrar com Helena e encurtou-se; logo chegaram em casa! Marcos aos poucos largava-lhe a cintura e em uma tentativa de esconder dos demais que a chuva chovia murmurou um 'boa noite' ao ouvido e a abandonou ali, mais uma vez, ébria.
Helena não sentia suas pernas, os braços pareciam-lhe inexistentes e os pés não respondiam; estava anestesiada quase por completo, ainda lhe restava uma acelerada pulsação no peito.
Sentiu uma necessidade de enrolar o tempo; precisava pensar. Aquela cena já parecia-lhe mais um daqueles sonhos bons que não se repetem nunca mais, sonháveis uma única vez. Deitou-se olhando para aquele céu de gesso, sentia-se estranha, menos feliz do que devia. Não tardou muito e seus olhos se fecharam embarcando rumo suas utopias amorosas.
Os raios do novo dia que brotava, entravam pelas brechas da cortina amarela despertando-na. Helena sentiu a cabeça pesar, e estranhamente era de culpa. Sonhara o mesmo sonho a noite inteira, a cabeça que latejava contava-lhe que ela tinha feito coisa errada, a consciência se culpava e se justificava.
Levantou-se bem devagar, sentia-se tonta, exposta. Vestiu um longo vestido verde que ia até os pés, tinha a impressão de que todo aquele pano esconderia
seu segredo nem tão secreto. Respirou fundo, deixou que seus pulmões se deliciassem com o ar frio, criou coragem, saiu.
Ensaiava uma espontaneidade que havia perdido momentaneamente, temia entregar as pistas de seu crime. Mas todos pareciam desconhecer seu medo. 'Ufa, ainda era secreto!". Ôpa! Alguém estava fora do lugar; aonde ele tinha se metido? Não lhe agradava aquela situação, aquele vazio; ela até que gostava da insegurança que a presença de Marcos lhe causava.
Demorou a manhã inteira para que ele pudesse reaparecer; Helena tinha tido tempo de ensaiar todas as atitudes que deveria tomar quando olhasse para ele- corresponder, o que quer que fosse. Queria muito saber aonde ele tinha se enfiado, era aquele maldito ciúme se metendo, de novo, aonde não era chamado. Ignorou, fez que não era com ela. O meio-dia levou embora sua ansiedade: ele chegou! Deu-lhe um sorriso, mais nada. Tudo em um sorriso. Ela retribuiu, rapidamente movimentou seus lábios, bem sabia fazer isso.
Passou tempo demais, e sua perna balançando já reclamava da falta de atitude daquele idiota; 'Deus, já estava xingando o pobre coitado?' . Era quase final de tarde, o sol já queria ir embora. Ah, como Helena gostava tanto do pôr-do sol; Marcos bem que poderia adivinhar, ela era tão fácil de se ler. Mas a criatividade dele parecia pouca, ele estava se mostrando incapaz de arrumar uma desculpa, distrair todo o resto e a levar para ver o sol se pondo. Só que ele nem se mexia.
A impaciência começou a aumentar e dominar cada vez mais aquele pequenino corpo. Algo veio para lhe salvar. Ela sentiu alguém cutucar seu pé por debaixo da mesa, era ele! E queria lhe entregar, algo: um celular. Seus olhos míopes mal puderam ler. 'Fica comigo hoje?'. As mão tremulas e indecisas devem ter digitado um sim em resposta.
As horas andaram devagar, quase parando. Para alegria de Helena, a noite chegou. Nunca havia se arrumado tão bem, queria impressionar; prendeu as ondas em um rabo-de-cavalo, favorecia-lhe o rosto; não abriu mão de sua coleção de vestido, escolheu o mais bonito que possuía; aquela seria a sua noite.
Saiu do quarto, o coração palpitou, mandou embora para dentro de si o medo e em passos firmes encarou aquele olhar. Estava ficando mais forte, já não era tão fácil ficar bêbada. Tocou uma música qualquer, alguma coisa sobre recomeço, novo-amor. Como assim? Marcos se aproximava de Helena, puxou-lhe delicadamente pela mão, com o beijo-cavalheiro convido-lhe a dançar e ela deixou se levar por aqueles braços fortes.

(continua...)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Quando você voltar...

Peguei o telefone para te ligar, disquei teu número. Chamou. Desliguei! Na verdade, queria pedir para você voltar, voltar de marcha-ré, para ser como antes. Mas desisti. Acho que amigo que é amigo, amor que é amor, não pede essas coisas, não exige dessa forma; dá um carinho, manda uma esperança para dizer que tá vivo, um sorriso para tentar reconquistar. Senta, espera, espera e espera. Não corta-relação se não acontecer. Diz 'tudo bem, eu entendo'. Ah, o entender! Quem gosta gostando, de coração, ou melhor, de alma, entende; não obriga. Por isso, eu só te espero, porque te quero-querendo. E até te peço para voltar, mas não peço-pedindo. Tento aquela coisa de demosntrar, dizem que funciona...

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Fruto da indiferença

A chuva ia embora dando lugar a um forte vento que aumentava o frio daquele homem, sem conseguir tirar a alegria que trazia consigo. Ele tinha mais ou menos seus cinquenta anos, não tinha nome, era conhecido como "o moço do lixo"; também não tinha casa, fazia das ruas seu lar e dos bancos da praça Governador José Sarney sua cama. Para completar a coleção de coisas que lhe faltavam, era sozinho, nada de filhos ou esposa.
A rua aos poucos se esvaziava. O engarrafamento já havia se desfeito, ninguém caminhava pela calçada. Somente uma mulher gorda, um jovem magrelo e o moço do lixo davam vida para aquele lugar.
O último ônibus da noite finalmente chegou, a mulher e o rapaz embarcaram; ela aliviada, pois não se aguentava mais de medo daquele homem sujo e fedorento, tinha certeza que ele lhe roubaria a qualquer instante se continuasse ali; o menino nem havia se dado conta de que tinham outras pessoas além dele naquele lugar.
E para não deixar morta a rua, só restou o moço do lixo, que embrulhou-se com seu cobertor de jornal. E como se tivesse companhia disse: 'Até que tá uma noite gostosa, melhor frio que calor. Só essa maldita dor nas costas que não me deixa em paz. Ai, tomara que a consulta com o doutor lá no posto de saúde chegue logo, já faz três meses que eu espero. Bom mesmo é eu ir dormir e parar de reclamar, amanhã deve de ter um bocado de lixo para catar. Quem sabe eu não acho comida."
Antes de fechar os olhos e entrar em seu sono eterno sussurrou: 'obrigada, meu Deus'. Por que ele agradecia? Pelo que não tinha?
O dia amanheceu e o corpo do moço do lixo foi encontrado e tratado com a mesma indiferença que recebera em vida. As pessoas não entendiam que ele havia recebido a ajuda que lhe fora negada por pessoas importantes, como aquela que dava nome a praça.